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CBG e atletas: por que esse canabinoide entrou na conversa sobre recuperação esportiva

Treinar bem é apenas uma parte da performance.

Para quem corre, pedala, pratica musculação ou qualquer esporte com frequência, existe outro processo igualmente importante: a recuperação.

Depois de um treino intenso, o organismo passa por uma série de respostas fisiológicas. Há microlesões musculares, alterações inflamatórias, dor muscular tardia e, dependendo da intensidade, queda temporária de desempenho.

É justamente nesse período que os canabinoides começaram a chamar atenção dentro da ciência do esporte.

Entre eles está o CBG, ou cannabigerol.

Menos conhecido que o CBD, o CBG possui características farmacológicas próprias e hoje já aparece em pesquisas voltadas à recuperação muscular, desconforto pós-exercício e modulação de processos inflamatórios.

Primeiro: o que é CBG?

O CBG é um dos fitocanabinoides encontrados na Cannabis sativa.

Ele é derivado do CBGA, molécula que participa da formação de outros canabinoides importantes na planta. Por isso, o CBG acabou ficando popularmente conhecido como o “canabinoide mãe”.

Diferentemente do THC, o CBG não é conhecido por produzir o mesmo estado de intoxicação associado ao consumo de THC.

E, assim como ocorre com outros canabinoides, sua atuação não acontece por uma única via.

O CBG interage com diferentes alvos moleculares envolvidos em processos como percepção da dor, resposta inflamatória e sinalização do sistema nervoso.

É essa característica que tornou o composto especialmente interessante dentro do contexto esportivo.

O que acontece com o músculo depois de um treino intenso?

Aquela sensação de dor que costuma aparecer entre 24 e 72 horas depois de um treino diferente ou mais intenso tem nome:

DOMS — Delayed Onset Muscle Soreness, ou dor muscular de início tardio.

Ela faz parte da resposta do organismo ao esforço.

Durante a recuperação podem aparecer:

  • dor e sensibilidade muscular;
  • rigidez;
  • diminuição temporária da amplitude de movimento;
  • sensação de peso muscular;
  • redução transitória da capacidade de produzir força.

Por isso, recuperação esportiva não significa simplesmente “eliminar a inflamação”.

A resposta inflamatória faz parte da adaptação ao treinamento.

O objetivo é favorecer um processo de recuperação equilibrado, permitindo que o atleta volte a treinar adequadamente.

E onde entra o CBG?

Um estudo clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo publicado no Journal of the International Society of Sports Nutrition avaliou diretamente uma formulação contendo CBD + CBG em pessoas treinadas submetidas a um protocolo destinado a provocar dor muscular tardia.

A formulação utilizada continha:

35 mg de CBD + 50 mg de CBG, além de beta-cariofileno, BCAAs e magnésio.

Os participantes utilizaram a formulação duas vezes ao dia durante 3,5 dias após o protocolo de exercício.

O que aconteceu com a recuperação?

Os pesquisadores observaram um resultado particularmente interessante.

Após 48 horas, os participantes que receberam a formulação ativa apresentaram menor interferência da dor, do desconforto e da rigidez muscular nas atividades diárias, em comparação ao placebo.

Também houve uma diferença favorável na avaliação de dor/desconforto muscular em 72 horas.

Esse ponto é importante porque recuperação esportiva não é medida somente por exames laboratoriais.

Para quem treina regularmente, importa também conseguir:

andar normalmente no dia seguinte, trabalhar, subir escadas, realizar outro treino e manter a rotina sem que o desconforto muscular tenha um impacto tão grande.

Foi justamente em um aspecto funcional como esse que a formulação contendo CBD e CBG apresentou resultado positivo.

CBG é um pré-treino?

Não.

CBG não deve ser entendido como uma substância que aumenta diretamente força, velocidade ou resistência.

O interesse esportivo está principalmente no outro lado da equação:

o período entre um estímulo de treinamento e o próximo.

Isso envolve recuperação muscular, percepção de desconforto e equilíbrio dos processos fisiológicos desencadeados pelo exercício.

Em outras palavras:

CBG não substitui treinamento. Ele entra na conversa sobre recuperação.

CBG e inflamação

Outro motivo pelo qual o CBG passou a ser estudado nesse contexto é sua interação com vias inflamatórias.

Em estudos experimentais, o CBG demonstrou atividade sobre mediadores associados à inflamação, incluindo vias como NF-κB e MAPK, além de marcadores como COX-2, TNF-α, IL-1β e IL-6.

Isso não significa bloquear completamente a inflamação gerada pelo exercício.

E nem seria desejável.

A inflamação aguda faz parte da adaptação ao treinamento.

O interesse está na modulação dessa resposta, especialmente quando há desconforto muscular e necessidade de recuperação entre sessões.

CBD + CBG: por que essa combinação aparece no esporte?

CBD e CBG não são moléculas idênticas.

Embora ambos sejam canabinoides não intoxicantes, eles possuem perfis farmacológicos diferentes e interagem de maneiras distintas com diversos alvos do organismo.

Essa é uma das razões pelas quais formulações esportivas começaram a explorar a combinação.

No estudo de recuperação muscular citado anteriormente, por exemplo, CBD e CBG foram administrados juntos.

O resultado não deve ser atribuído exclusivamente ao CBG — havia outros componentes na formulação —, mas é uma evidência clínica relevante de uma estratégia multicanabinoide aplicada à recuperação pós-exercício.

Recuperação também é performance

Existe uma ideia importante no esporte:

o treinamento é o estímulo. A adaptação acontece durante a recuperação.

Treinar cada vez mais sem recuperar adequadamente não significa necessariamente evoluir mais rápido.

Sono, alimentação, hidratação, descanso e organização da carga de treinamento continuam sendo a base.

E é dentro desse cenário que CBD, CBG e outros canabinoides passaram a fazer parte das discussões sobre esporte.

Não como atalhos para aumentar performance.

Mas como ferramentas voltadas a alguns dos processos que acontecem depois que o treino termina.

CBG e atletas profissionais: atenção às regras antidoping

Aqui existe um ponto especialmente importante.

Para atletas submetidos às regras da WADA, CBD e CBG não devem ser tratados da mesma maneira.

O CBD foi retirado da lista de substâncias proibidas, mas outros canabinoides continuam proibidos durante o período de competição.

Um estudo publicado recentemente demonstrou inclusive que produtos broad spectrum contendo pequenas quantidades de CBG podem gerar concentrações detectáveis desse canabinoide na urina, e o exercício aumentou essas concentrações em alguns participantes.

Portanto, atletas sujeitos a testes antidoping precisam verificar cuidadosamente a composição dos produtos utilizados.

O CBG está ampliando o olhar sobre cannabis e esporte

Durante muitos anos, cannabis no esporte esteve associada quase exclusivamente ao THC.

Depois, o CBD ganhou espaço.

Agora, outros fitocanabinoides começam a entrar nessa conversa.

O CBG se destaca porque reúne propriedades farmacológicas relacionadas a dor e resposta inflamatória, e já aparece em ensaios clínicos de formulações voltadas especificamente à recuperação muscular após exercício.

Isso também ajuda a mudar uma ideia antiga sobre cannabis medicinal.

Não existe apenas “CBD”.

Existem diferentes canabinoides, diferentes combinações e diferentes objetivos de uso.

E entender essas diferenças é justamente o que permite criar formulações cada vez mais direcionadas.

Referências científicas

Peters EN et al. (2023). A randomized, double-blind, placebo-controlled, repeated-dose pilot study of the safety, tolerability, and preliminary effects of a cannabidiol (CBD)- and cannabigerol (CBG)-based beverage powder to support recovery from delayed onset muscle soreness (DOMS). Journal of the International Society of Sports Nutrition. O estudo avaliou 40 pessoas treinadas e encontrou redução da interferência de dor, desconforto e rigidez nas atividades diárias com a formulação contendo CBD + CBG.

Thompson ES, Alcorn J, Neary JP. (2024). Cannabinoid Therapy in Athletics: A Review of Current Cannabis Research to Evaluate Potential Real-World Cannabinoid Applications in Sport. Sports Medicine. Revisão abrangente sobre canabinoides, recuperação e aplicações no contexto esportivo.

Cannabigerol Exerts In Vivo and In Vitro Anti-Inflammatory Effects via Inhibition of the MAPK and NF-κB Pathways. Estudo experimental mostrando a atuação do CBG sobre diferentes mediadores e vias inflamatórias.

Daily Use of a Broad-Spectrum Cannabidiol Supplement Produces Detectable Concentrations of Cannabinoids in Urine Prohibited by the World Anti-Doping Agency: An Effect Amplified by Exercise. Estudo importante para atletas sujeitos a controle antidoping, mostrando detecção urinária de CBG após consumo de produto broad spectrum.

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