O Outubro Rosa é um convite para falar sobre prevenção, diagnóstico precoce e cuidado com a saúde da mulher. Mas também é uma oportunidade para ampliar a conversa sobre a qualidade de vida de quem enfrenta o câncer de mama.
O tratamento oncológico pode envolver cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia e outras abordagens, dependendo das características da doença.
Embora esses tratamentos sejam fundamentais, alguns pacientes enfrentam efeitos que interferem profundamente no dia a dia: náuseas, dores, alterações do sono, perda de apetite e sofrimento emocional.
É nesse contexto que a cannabis medicinal vem sendo estudada como uma possibilidade de cuidado complementar.
Seus principais compostos, conhecidos como canabinoides, apresentam propriedades farmacológicas que despertam interesse na oncologia e nos cuidados paliativos.
Mas quais benefícios já foram investigados em pacientes com câncer?
Cannabis medicinal no tratamento oncológico: qual é o seu papel?
A cannabis contém diferentes canabinoides. Entre os mais conhecidos estão o canabidiol (CBD) e o tetra-hidrocanabinol (THC).
Esses compostos interagem com sistemas do organismo envolvidos na percepção da dor, no apetite, na resposta ao estresse e em outras funções fisiológicas.
O organismo também possui o chamado sistema endocanabinoide, formado por receptores, substâncias produzidas naturalmente pelo corpo e enzimas que participam de diferentes processos de regulação.
Na oncologia, o interesse pelos canabinoides está principalmente no potencial de auxiliar no controle de determinados sintomas associados à doença e aos tratamentos.
Isso significa que a cannabis medicinal pode ser considerada, em situações específicas, como parte dos cuidados de suporte, sempre com avaliação da equipe responsável pelo tratamento.
1. Náuseas e vômitos provocados pela quimioterapia
Náuseas e vômitos estão entre os efeitos adversos mais conhecidos de alguns tratamentos quimioterápicos.
Além do desconforto, podem prejudicar a alimentação, a hidratação e a qualidade de vida.
Essa é uma das aplicações oncológicas mais estudadas dos canabinoides.
Pesquisas clínicas com medicamentos à base de THC, como dronabinol e nabilona, demonstraram atividade antiemética, especialmente em pacientes que não obtiveram controle adequado dos sintomas com outras estratégias.
Uma revisão sistemática da Cochrane identificou evidências de que medicamentos à base de cannabis podem ajudar a controlar náuseas e vômitos relacionados à quimioterapia, embora também possam provocar efeitos adversos como tontura e sonolência.
É importante destacar que esses resultados se referem principalmente a medicamentos específicos contendo THC, e não a qualquer óleo de CBD.
2. Dor relacionada ao câncer e ao tratamento
A dor oncológica pode ter diferentes origens.
Ela pode estar relacionada ao próprio tumor, a procedimentos cirúrgicos ou a efeitos dos tratamentos, como determinadas neuropatias provocadas pela quimioterapia.
O sistema endocanabinoide participa de mecanismos envolvidos na percepção e na modulação da dor, o que levou pesquisadores a investigar canabinoides nesse contexto.
Estudos clínicos avaliaram formulações combinando THC e CBD como tratamento complementar em pacientes com dor oncológica persistente.
Alguns estudos encontraram melhora em determinados desfechos, enquanto outros não demonstraram benefícios significativos em comparação ao placebo.
Por isso, a cannabis ainda não é considerada um tratamento de eficácia estabelecida para a dor oncológica, mas continua sendo objeto de investigação.
Seu eventual uso deve ser avaliado individualmente, sem substituir as estratégias analgésicas recomendadas.
3. Sono e descanso durante o tratamento
O diagnóstico e o tratamento do câncer podem modificar profundamente a rotina de sono.
Dor, ansiedade, sintomas da menopausa induzida pelo tratamento e efeitos de medicamentos podem dificultar o descanso.
O CBD e outros canabinoides vêm sendo investigados por sua possível influência sobre o sono e sobre fatores que interferem nele.
Embora existam estudos com resultados positivos para determinadas formulações, as evidências específicas em pacientes oncológicos ainda são limitadas.
O mais importante é compreender que dormir melhor pode envolver o controle de vários sintomas ao mesmo tempo, e não apenas o uso de um produto para induzir o sono.
4. Ansiedade e bem-estar emocional
Receber um diagnóstico de câncer pode trazer medo, incertezas e mudanças importantes na vida pessoal e familiar.
O CBD vem sendo estudado por seus possíveis efeitos sobre a ansiedade, inclusive em ensaios clínicos com pessoas que apresentam transtornos ansiosos.
Uma meta-análise publicada em 2024 encontrou resultados favoráveis para redução da ansiedade, mas destacou a necessidade de estudos maiores.
Esses resultados não significam que o CBD já tenha eficácia comprovada para ansiedade especificamente relacionada ao câncer.
Ainda assim, representam uma área de pesquisa relevante para compreender como os canabinoides podem participar de abordagens de cuidado mais amplas.
O suporte psicológico, o acolhimento e o acompanhamento da equipe de saúde continuam fundamentais.
5. Falta de apetite e dificuldades alimentares
A perda de apetite pode acontecer durante o tratamento oncológico por diferentes razões, como náuseas, alterações no paladar, desconforto gastrointestinal e efeitos dos medicamentos.
O THC é conhecido por sua capacidade de estimular o apetite em determinadas circunstâncias, o que motivou pesquisas com pacientes oncológicos.
Entretanto, os resultados clínicos são variados. Em um estudo com pacientes com câncer avançado, o dronabinol não apresentou resultados superiores ao medicamento megestrol para estimular o apetite e favorecer o ganho de peso.
Assim, embora os canabinoides despertem interesse nessa área, seu uso não substitui o acompanhamento nutricional nem os tratamentos específicos para perda de peso e desnutrição.
A cannabis pode combater células cancerígenas?
Essa é uma das questões que mais despertam curiosidade.
Pesquisas pré-clínicas investigaram a ação de canabinoides sobre mecanismos envolvidos no desenvolvimento de tumores, incluindo proliferação celular, morte celular programada e processos inflamatórios.
Alguns experimentos com células e animais encontraram resultados interessantes, inclusive em modelos de câncer de mama.
No entanto, resultados observados em laboratório não demonstram que a cannabis trate ou cure o câncer em seres humanos.
Até o momento, não existem evidências clínicas suficientes para recomendar CBD, THC ou outros canabinoides como tratamento antitumoral.
A Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) recomenda que cannabis e canabinoides não sejam utilizados para substituir tratamentos oncológicos nem para potencializar diretamente seu efeito fora de ensaios clínicos.
O que dizem as principais recomendações médicas?
Em 2024, a ASCO publicou uma diretriz específica sobre cannabis e canabinoides em adultos com câncer.
O documento reconhece que determinados canabinoides podem ser considerados como tratamento complementar para náuseas e vômitos persistentes provocados pela quimioterapia, quando o tratamento convencional adequado não foi suficiente.
A recomendação contempla medicamentos como dronabinol e nabilona, além de extratos orais padronizados com proporção de 1:1 entre THC e CBD, embora a força das evidências varie conforme a formulação.
Para dor, sono, ansiedade e outros sintomas oncológicos, ainda não existem evidências suficientes para uma recomendação geral.
Isso demonstra a importância de avaliar cada situação individualmente e de não atribuir a todos os produtos de cannabis os mesmos resultados.
Journal of Clinical Oncology
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O acompanhamento médico é fundamental
Pacientes em tratamento oncológico frequentemente utilizam diferentes medicamentos, e os canabinoides podem apresentar interações relevantes.
O CBD, por exemplo, pode interferir em enzimas envolvidas no metabolismo de medicamentos. Doses elevadas também podem provocar alterações nas enzimas do fígado.
Além disso, produtos contendo THC podem causar tontura, sonolência e alterações cognitivas.
Por isso, qualquer possibilidade de utilização deve ser discutida com o oncologista, considerando o tratamento em andamento, as condições clínicas e a composição do produto.
Outubro Rosa: cuidar também é oferecer qualidade de vida
O Outubro Rosa reforça a importância da informação, da detecção precoce e do acesso ao tratamento adequado para o câncer de mama.
Mas também nos lembra que o cuidado vai além do diagnóstico.
Controlar sintomas, preservar a alimentação, acolher o sofrimento emocional e buscar mais conforto durante o tratamento são partes importantes da atenção à pessoa com câncer.
A cannabis medicinal representa uma área de pesquisa que já apresenta aplicações específicas no controle de sintomas, especialmente náuseas e vômitos persistentes relacionados à quimioterapia.
À medida que novos estudos avançam, será possível compreender melhor seu papel em outras necessidades dos pacientes.
Na Luna Organics, acreditamos que ciência, acolhimento e qualidade de vida devem caminhar juntos. Neste Outubro Rosa, reforçamos a importância de olhar para cada paciente de maneira integral, respeitando sua história, suas necessidades e todas as dimensões do cuidado.
Referências científicas
1. Braun IM et al. (2024). Cannabis and Cannabinoids in Adults With Cancer: ASCO Guideline. Journal of Clinical Oncology. Diretriz clínica baseada em revisão sistemática sobre eficácia, segurança e utilização de canabinoides em pacientes oncológicos. PubMed – PMID 38478773.
2. Smith LA et al. (2015). Cannabinoids for nausea and vomiting in adults with cancer receiving chemotherapy. Cochrane Database of Systematic Reviews. Revisão de 23 ensaios clínicos randomizados sobre canabinoides no controle de náuseas e vômitos associados à quimioterapia. Consultar estudo.
3. National Cancer Institute (NCI). Cannabis and Cannabinoids (PDQ®). Revisão das evidências sobre cannabis, canabinoides e sintomas relacionados ao câncer e seus tratamentos. Consultar publicação.
4. American Society of Clinical Oncology (2024). Cannabis and Cannabinoids in Adults With Cancer. Recomendações sobre utilização clínica, controle de sintomas e limitações das evidências. Consultar diretriz completa.