Um remédio milenar
A cannabis acompanha a humanidade há milhares de anos. Na China antiga (2700 a.C.), registros já descreviam a planta como parte da medicina tradicional para dores e distúrbios do sono. Na Índia, era usada em rituais e para aliviar náuseas. Povos africanos e árabes também a aplicavam como analgésico e no tratamento de doenças gastrointestinais.
A chegada ao Brasil
No século XIX, a cannabis — chamada na época de canhamo ou cânhamo da Índia — já era utilizada como remédio popular no Brasil, com forte influência da medicina indígena e africana.
- 1870: farmácias vendiam os chamados “cigarros índios”, indicados para asma e bronquite.
- 1901: o médico Francisco de Castro prescrevia extrato de cannabis para dores e espasmos musculares.
O uso era comum em farmácias e consultórios, mas sem o estigma que viria depois.
A criminalização e o preconceito
A partir da década de 1920, campanhas políticas e midiáticas passaram a associar a cannabis a religiões afro-brasileiras e à população negra. Esse discurso, carregado de racismo estrutural, resultou em proibições e criminalização.
Com isso, a planta foi retirada das farmacopeias oficiais e deixou de ser vista como recurso terapêutico, passando a ser tratada como “problema social”.
A virada científica
A ciência retomou o interesse a partir da segunda metade do século XX:
- 1960s – Rafael Mechoulam (Israel): isolou o THC e ajudou a identificar o sistema endocanabinoide, presente em todo o corpo humano.
- 1970s em diante – Elisaldo Carlini (Brasil): conduziu pesquisas pioneiras mostrando a eficácia da cannabis em condições como epilepsia.
Essas descobertas mudaram o paradigma: os canabinoides deixaram de ser vistos apenas como recreativos e ganharam espaço no campo medicinal.
Regulamentação no Brasil
- 2014: famílias de pacientes começaram a recorrer à Justiça para garantir o direito de importar óleos de cannabis.
- 2015: a ANVISA autorizou oficialmente a importação de produtos à base de canabidiol.
- 2019: regulamentou a venda em farmácias, ainda com restrições.
- 2022 – RDC 660: ampliou o acesso, simplificando processos de importação.
Hoje e o futuro
Atualmente, a cannabis medicinal já faz parte da prática clínica no Brasil e no mundo, prescrita por médicos e dentistas para condições como:
- Epilepsia refratária
- Autismo
- Parkinson
- Esclerose múltipla
- Dores crônicas
- Transtornos do sono
- Ansiedade
Apesar dos avanços, ainda existem desafios regulatórios e muito preconceito. Ao mesmo tempo, cresce o número de pesquisas, produtos e profissionais capacitados, reforçando o papel da cannabis como uma alternativa terapêutica real e baseada em ciência.
📌 Conclusão
A história da cannabis medicinal é marcada por contrastes: já foi um remédio popular vendido em farmácias brasileiras, virou alvo de criminalização e estigma, e hoje retorna às prateleiras em formulações modernas e controladas. Um percurso que mostra como ciência, cultura e sociedade caminham lado a lado na forma como enxergamos essa planta.