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Raízes e resistência: a história afro-brasileira da cannabis e o que ela muda no debate medicinal

A história da cannabis no Brasil não começa com laboratórios, regulamentações ou pesquisas clínicas.
Ela começa muito antes — nas mãos de pessoas negras escravizadas, que trouxeram consigo não só sementes, mas saberes, espiritualidade e resistência.

Entender essa trajetória é essencial para compreender por que a cannabis ainda carrega tabus e por que o acesso ao tratamento medicinal é, também, um tema de justiça social.


As raízes afro-brasileiras da cannabis

Quando os povos africanos foram trazidos à força para o Brasil, vieram também suas visões, rituais e práticas de cuidado. Entre esses elementos estava a planta conhecida como:

  • Diamba
  • Pango
  • Fumo de Angola

Em várias regiões da África Central e Ocidental, a cannabis era utilizada em contextos:
🌿 espirituais
🌿 comunitários
🌿 medicinais
🌿 rituais de proteção e pertencimento

Esses usos continuaram em território brasileiro — muitas vezes como forma de manter identidades vivas em meio à violência da escravidão.


Criminalização como ferramenta de controle racial

Após a abolição (1888), o Estado brasileiro buscou mecanismos para controlar e vigiar a população negra “liberta”.
Entre eles estava a criminalização da cannabis, especialmente através da repressão ao chamado:

“pito do pango”

Documentos da época revelam que o consumo da planta foi associado a “vadios”, “capoeiras”, “negros desordeiros”.
Essa repressão não tinha base científica — era um instrumento de:

  • controle social
  • racismo institucional
  • contenção cultural

A planta, que antes representava espiritualidade e cuidado, passou a ser usada como justificativa para perseguir corpos negros.

Essa marca histórica atravessou o século XX — e chega até hoje.


O estigma ainda impacta o acesso ao tratamento medicinal

Mesmo com avanços regulatórios e pesquisas científicas crescentes, o estigma construído lá atrás ainda tem efeitos concretos:

  • pacientes negros têm menos acesso a médicos prescritores
  • muitas famílias evitam o tema por medo de associação com criminalidade
  • políticas públicas ignoram desigualdades raciais
  • o mercado canábico segue majoritariamente branco, mesmo sendo construído sobre saberes afro-diaspóricos

Quando falamos em “cannabis medicinal”, é impossível não reconhecer esse histórico.


Reparação é também científica, regulatória e econômica

Falar em reparação, no contexto da cannabis medicinal, significa:

✔ Reconhecer a ancestralidade

Resgatar a história dos usos africanos e afro-brasileiros, não como tabu, mas como parte legítima da cultura.

✔ Produzir ciência acessível

Tornar informação, pesquisas e educação acessíveis para populações mais vulneráveis.

✔ Garantir acesso

Políticas públicas, programas subsidiados e inclusão de prescritores no SUS.

✔ Abrir portas no mercado

Criar espaço para empreendedores, pacientes, pesquisadores e profissionais negros em um setor que movimenta bilhões no mundo inteiro.

✔ Reduzir danos do passado

Enxergar que o estigma não é neutro — e que reparação passa também por coerência e memória.


Conhecimento também é reparação.
Reconhecer o passado ajuda a construir um futuro mais justo e mais consciente.